Por que ainda somos obcecados pelo estilo Mid-century?

Escritorio de Arquiteto em londrina Thiago Muñoz

Sabe quando você entra em uma sala e, mesmo sem entender muito de design, sente que tudo está exatamente onde deveria estar? Frequentemente, o “culpado” por essa sensação de ordem e acolhimento é o DNA do modernismo de meados do século XX, ou o famoso Mid-century Modern. É curioso pensar nisso. Estamos em uma era de casas inteligentes e impressão 3D, mas continuamos caçando aparadores com pé palito e poltronas que parecem ter saído do cenário de Mad Men. Mas por que essa obsessão não passa? A resposta curta é: porque funciona. A resposta longa envolve um pouco de história, muita ergonomia e uma pitada de psicologia. A arquitetura da leveza Vamos olhar para a realidade dos imóveis hoje. Os apartamentos estão encolhendo. Se você tentar mobiliar uma sala de 60m2 com sofás vitorianos pesados ou estantes que vão do chão ao teto sem respiro, o ambiente vai te sufocar. Aqui entra a genialidade técnica do Mid-century: a elevação. A maior parte do mobiliário desse estilo é suspensa do chão por pernas finas e anguladas. Isso não é apenas estético; é um truque visual de arquitetura de interiores. Quando o olho consegue ver o piso correndo por baixo do sofá ou do rack, o cérebro interpreta o espaço como sendo maior do que realmente é. A luz circula melhor, a ventilação flui (algo crucial no nosso clima tropical) e a sensação de “aperto” diminui drasticamente. Honestidade brutal (e elegante) Outro ponto que me faz, como profissional, respeitar profundamente esse período é a honestidade dos materiais. Não havia espaço para fingimento. Madeira parecia madeira, metal era metal, vidro era vidro. Pense num projeto residencial contemporâneo que busca essa estética. Não estamos tentando esconder a estrutura da casa; pelo contrário, a estrutura é a beleza. Vigas aparentes, concreto exposto e grandes janelas de vidro que integram o interior com o jardim são heranças diretas desse pensamento. No Brasil, tivemos a sorte de tropicalizar isso com maestria. Enquanto os americanos usavam nogueira e teca, nós tínhamos o Jacarandá e a Imbuia. Nossos mestres, como Sergio Rodrigues e Joaquim Tenreiro, adicionaram a palhinha para lidar com o calor. O resultado? Uma elegância despojada que nunca envelhece. O perigo do “Cenário de Novela” Agora, preciso ser franco sobre um erro comum que vejo em reformas e decoração. Amar o Mid-century não significa transformar sua casa em um museu dos anos 50. Ninguém quer viver dentro de um cenário de época intocável. A chave para usar esse estilo hoje é o contraste. O design moderno é o melhor amigo do ecletismo. Experimente colocar uma poltrona Charles Eames (ou uma Mole, se formos valorizar o nacional) ao lado de uma mesa de centro de concreto bruto ou sobre um tapete persa desgastado.